Barbudos pelo Mundo – Entrevista com Hugo Delgado

É com muita alegria que iniciamos a nossa mais nova coluna: Barbudos pelo Mundo! Esse é um desejo que sempre acompanhou o Blog da Barba e que conseguimos colocar em prática agora.

A ideia é conectar os barbudos dos mais diversos estilos de vida, contar um pouco sobre o que fazem e como a barba influencia na sua vida. Acreditamos que conhecer um pouco mais de pessoas diversas é o primeiro caminho para aceitar as diferenças, e esperamos que esse quadro possa abrir portas e fronteiras para todos vocês, pouco a pouco, a cada entrevista.

O mundo é dos barbudos! Venham com a gente e se inspirem!

E para inaugurar o nosso quadro Barbudos pelo Mundo, nada melhor do que começar com um barbado muito simpático, que consegue exprimir suas raízes e vivências na comida! Para iniciar nossa série de entrevistas, nós convidamos o amigo Hugo Delgado, que se define como o restauranteiro de duas casas em São Paulo: o Obá Restaurante e a Taquería La Sabrosa.

Aproveitem a entrevista, e fiquem a vontade para comentar e sugerir novos barbudos para participar!

Blog da Barba:Hugo, conte um pouco para a gente como foi a história da barba na sua vida. Como decidiu deixar a barba crescer, porque…

Hugo Delgado:Lembro que tinha 20 e poucos anos e morava na Cidade do México, e comecei a deixar o cavanhaque, porque era o que estava mais na moda na época. E lembro que isso foi na mesma época em que eu percebi que o meu cabelo começou a cair (risos). É engraçado porque eu acho que quando você começa a ficar careca e não tem muita opção de penteado, você começa a brincar com a barba (pode ser barba, cavanhaque, bigode, etc).

E essa questão de ser careca sempre me pegou, pois aqui no Brasil, tanto os homens como as mulheres falam de seu cabelereiro com muito apego, como uma pessoa muito importante na vida delas, e por ser carequinha, eu sempre me senti excluído, pois por não podia participar desse mundo. Agora com essa moda de barbearias por São Paulo, eu posso voltar a participar desse mundo (risos).

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BB: E quando você começou a usar barba, era uma coisa comum?

HD: Não era tão comum, e eu não tinha certeza se me sentia mais interessante ou não, mas fato é que naquela época a barba aumentava o meu ibope (risos). Se eu entrasse em um lugar sem barba, talvez ninguém olhasse, mas se estivesse usando barba, todo mundo olhava, e eu chamava a atenção.

Assim, com a barba eu tinha a primeira impressão garantida, e depois as pessoas decidiam se gostavam ou não de mim. Havia essa coisa de vaidade, de ser percebido. E mesmo quando me falavam que eu ficava uns sete anos mais novo sem a barba, eu pensava que não queria parecer mais novo, mas sim chamar a atenção, só isso (risos).

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BB:E nesses vinte e tantos anos em que você usa barba, já passou por diversos países e tipos de trabalho. Como é isso para você?

HD:Lembro que na primeira vez que fui morar na China, com vinte e poucos anos, eu usava cavanhaque, e foi uma experiência muito interessante, pois os chineses não têm muitos pelos, e por isso, não conseguem usar barba. E isso era muito diferente de mim, pois eu já tinha alguns pelos no peito, e as pessoas achavam isso muito diferente, e queriam me tocar de tão diferente que me achavam.

E por falar das minhas histórias na China, lembrei de uma que sempre conto: sabe aquela mania que temos de dizer que não conseguimos reconhecer os chineses, pois para nós ocidentais eles são todos iguais?! Pois quando eu morei lá, eu percebi que da mesma forma que a gente, os chineses também não conseguem reconhecer os ocidentais, eles nos confundem e nos acham todos iguais. Então, eu podia pegar uma identidade de um norueguês, por exemplo, e estava tudo certo (risos).

Naquela época, por exemplo, eles juravam que eu era o André Agassi, pois era carequinha e tinha cavanhaque!!! Até usei isso de fantasia em uma festa (risos).

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BB: E no México, como é ter barba?

HD: No México é interessante, pois uma grande parte da população têm descendência indígena, que não possuem muitos pelos no corpo ou no rosto, e por conta disso não conseguem deixar a barba crescer. Mas por outro lado, é um país com tradição de bigode e barba, por conta do imaginário popular, que tem nomes como Venustiano Carranza, Pancho Villa, Frida Kahlo (risos).

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Carranza Venustiano

Pancho Villa

Pancho Villa

Frida Kahlo

Frida Kahlo

Vestusiano Carranza e Pancho Villa, figuras da Revolução Mexicana com seus belos bigodes, cada um a seu estilo. E por fim, Frida Kahlo, grande pintora mexicana, com seu bigode característico.

Assim, no México, o bigodão, oestilo latin lover, com as camisas mais abertas e o pelo no peito aparecendo, já eram mais comuns.

BB: E hoje em dia, você se sente a vontade em qualquer lugar com a barba?

HD: Sim. Acho que antes tinha aquele papo de que se você trabalha em banco, ou como garçom, você não podia ter barba, pois as pessoas teriam menos confiança em pessoas com barba, mas acredito que isso está mudando. Nunca me senti discriminado por ter barba.

Acho que isso aconteceu por que coisas como tatuagens, roupas e moda já eclipsaram a barba. Eu, por exemplo, sempre brinco que em uma mesa com 10 brasileiros, eu sinto que eu sou o rebelde, pois só eu não tenho tatuagem (risos)!

Acho que antes ninguém contrataria um balconista com alargador de orelha e cabelo azul, por exemplo, mas hoje em dia, que bom que cada vez mais as pessoas têm liberdade para se expressar e são respeitadas por isso.

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A barba está tão presente que merece viajar sobre o assunto

BB: Uma coisa que o Daniel (o barbudo do Blog da Barba) sempre fala é que quando ele está em uma reunião de negócios, e passa a mão na barba, sente que as pessoas param para escutar que ele tem a dizer, curiosos por sua opinião, por passar mais segurança ou conhecimento. Você também sente isso?

HD: Nossa, é bom saber! (risos) Não sabia desse recurso! Já tinha ouvido de uma amiga peruana que faz pesquisas de comportamento, que quando as mulheres tocam os cabelos no meio de uma conversa, significa que elas estão paquerando, como um sinal de que está rolando alguma coisa. E que realmente funciona! Então agora que vocês me falaram isso sobre a barba, vou usar esse novo recurso nas reuniões!

Acho que esse tipo de reação pode acontecer dependendo do tamanho da barba também, eu, por exemplo, não consigo deixar minha barba ficar muito grande, porque eu acho que ela não fica muito boa, ela sai de controle. Mas, de qualquer forma, acho que tem certos tipos de barba que comunicam coisas diferentes, como as barbas grandes, que expressam sabedoria, tal como o Merlin de Harry Potter (risos).

BB:E por usar barba há tanto tempo, você dá mais crédito à pessoas com barba? Existe um clã dos barbudos?

HD: Mais que confiança, eu tenho tesão por barbudos!! Tenho que confessar! (risos)

Como morei nos lugares mais diversos, acabei conhecendo pessoas japonesas, chinesas, mulatas, negras, judias , católicas, com e sem burca, e no fim, o visual da pessoa não é mais uma coisa que seja um filtro para mim, pois me sinto à vontade com todo tipo de pessoas.

E essa diversidade é uma das coisas que mais gosto no Obá e na Taquería, pois tem mesas de jovens como vocês, de casais mais velhos, com meninos de mãos dadas, outra com uns ‘ursos’ e meninas juntos. Então, você sente que tem uma mistura muito interessante, e eu gosto muito disso. Sinto a mesma coisa com a barba, e assim eu não julgo as pessoas por estarem com ou sem barba. Mas acho que a barba é uma coisa muito sexy nos homens.

BB: E porque você resolveu montar um restaurante em SP? Mesmo depois de ter vivido em lugares tão diferentes?

HD: Bom, primeiro porque São Paulo já tinha me marcado muito antes mesmo de eu vir até aqui: meus pais, nos anos 70, acabaram trazendo alguns grupos para passar os carnavais aqui no Brasil e algumas vezes passaram por São Paulo. Eles sempre me disseram que eu iria gostar muito da cidade. Eu só conheci São Paulo por volta de 1995, por um projeto da P&G (empresa que ele trabalhava na época).Eu tive que ficar em São Paulo por uns cinco dias e quando eu cheguei a cidade me causou um impacto muito bom. Eu curti a cidade, gostei da energia, e alguns meses depois, quando fui transferido para a China, eu brinquei dizendo para minha chefe que só voltaria da China pela empresa se fosse para atuar em São Paulo.

Depois de quatro anos na China é claro que eu já tinha esquecido isso, mas minha chefe não, e quando eu ameacei sair da empresa, eles me ofereceram um projeto incrível, para fazer o lançamento do sabão em pó da P&G no Brasil, Argentina e Chile.

Por conta disso eu mudei de vez para São Paulo, e apesar de já gostar da cidade e da energia, ter vindo direto da China, gerou um p** choque cultural delicioso, tudo foi incrível!

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Era o ano de 1999, e tinha muito estrangeiros no meu escritório. Sempre que conversávamos sobre o Brasil, eles reclamavam que estavam ficando muito tempo no trânsito, que a instalação de serviços demorava, e eu achava tudo muito bom, pois na China demorava muito mais!Então para mim foi muito bom! Nem sei como está agora, mas acho que a China deve estar bem melhor (risos), mas na época foi uma boa surpresa adicional.

E de repente me vi em um país incrível, com pessoas incríveis, em uma cidade gigante, com os restaurantes crescendo muito, então era a hora e o local certo para fazer essa transferência e foi assim que aconteceu.

BB:E você acha que barba e cozinha combinam?

HD: Sim, totalmente, eu acho que combina muito com barba e até está meio na moda os cozinheiros tatuados, com barba, piercing, etc.Acho que a barba é um recurso dos homens, e acho que temos que usar e abusar.

E acho que toda essa coisa de obrigar a tirar a barba, no exército, polícia, bancos, etc, é meio castrante, é uma tentativa de controlar essa coisa viril, forte e selvagem que existe nos homens. É bom que a moda da barba tenha voltado, para não ficarmos todos meio robôs.

BB: Recentemente nós participamos de um talk de moda masculina, e entendemos que muito mais homens têm procurado informações de moda e estilo, o que usar e como fazer combinações. Então achamos que as pessoas estão se sentindo mais confortáveis em experimentar coisas novas, e descobrir mais maneiras de fazer isso. Concorda com isso?

HD: Da mesma forma que eu acho que temos que agradecer as feministas radicais que queimaram os sutiãs, eu também acredito que os homens devem agradecer aos metrossexuais, porque eles abriram muito os caminhos. E hoje em dia não temos mais esse rótulo de metrossexual.

BB: E falando em moda, você acha que o seu estilo é diferente por causa da barba?

HD: Sim, claro que muda. Eu sempre falo que quando você se veste e cria um look, você não pode ter muitos elementos que chamem muito a atenção. Então, se eu deixasse crescer muito a barba, talvez usasse uns óculos mais finos. No México, por exemplo, se eu estiver sem barba, sou considerado uma pessoa mais coxinha, mas se estou com barba, fico mais latino, mais descontraído. Então, definitivamente é um elemento a mais.

BB: E você tem cuidados específicos, algum ritual diário de beleza?

HD: Sabe que não? Quando era jovem, com vinte e poucos anos descobri alguns cremes masculinos e tal, mas isso não está em mim. Eu não sou tão vaidoso assim, então eu uso apenas um protetor solar no rosto. Com a barba, nada. Às vezes pinto para disfarçar os brancos. E às vezes vou à barbearia, mas mais pelo prazer daquele momento do que pelo resultado efetivo, pois já que uso uma barba mais curta, o resultado não fica tão diferente.

BB: E para terminar, que tal um conselho para os nossos amigos do blog, já que já passou por tanta coisa diferente?

HD: A barba é um recurso muito bonito que os homens têm, e acho que podemos fazer várias coisas com isso. A barba combina com todos os tipos de looks, do clássico ao básico, então ela pode ser um ótimo acessório para a gente.Usem e abusem!

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E assim foi o bate papo, descontraído, cheio de risadas e curiosidades

Caros leitores deste blog, já tínhamos avisados que gostamos de gastronomia, né? Pois estamos orgulhosos de ter começado esta coluna com um cara tão bacana quanto o Hugo.

Mais informações sobre o Obá Restaurante:

www.obarestaurante.com.br

Endereço: Rua Melo Alves, 205 – Cerqueira César, São Paulo – SP, 01417-010
Telefone: (11) 3086-4774
Comentem e compartilhem bastante!
Grande abraço,
Equipe do Blog da Barba
Fotografias: Mariana Saliby – www.marianasaliby.com

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2 Responses

  1. Jessé Alves disse:

    Que entrevista mais gostosa, ótima condutividade na entrevista por parte do blog.
    Quem diria hein? Barba + comida, hahaha.

    A barba da um tom tão elegante no homem, ao mesmo tempo que lhe torna tão viril e rustico. Acho que é isso que toda mulher precisa e gostaria de ter em um homem. Virilidade e elegância.

    Parabéns pelo blog.

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